A rotina de uma farmácia é regida por normas rigorosas. Entre dispensar medicamentos, controlar estoque e gerenciar a equipe, existe uma exigência documental que tira o sono de muitos gestores e farmacêuticos: o manual de boas práticas farmacêuticas.
Muitos encaram este documento apenas como uma burocracia para apresentar à Vigilância Sanitária na renovação do alvará. No entanto, ele é a “constituição” da sua empresa. Um manual mal elaborado ou copiado da internet não apenas falha em descrever a realidade do seu negócio, como é o caminho mais rápido para sofrer autuações sanitárias durante uma inspeção.
Se você precisa criar, atualizar ou entender a fundo o Manual de Boas Práticas Farmacêuticas, este artigo é o seu guia definitivo. Vamos desmistificar a RDC 44/2009 e explicar, ponto a ponto, como garantir a conformidade da sua operação.
O que é o manual de boas práticas farmacêuticas (MBPF)?
O manual de boas práticas farmacêuticas é o documento que descreve as atividades e os procedimentos realizados no estabelecimento, garantindo que eles atendam aos requisitos de qualidade e segurança exigidos pela legislação.
Ele funciona como um “raio-x” descritivo da sua farmácia. Nele, devem estar detalhados a filosofia da empresa, a estrutura física, o quadro de funcionários e, principalmente, a política de qualidade adotada para cada processo — desde a compra do medicamento até a entrega ao consumidor final.
Segundo a RDC 44/2009 da ANVISA (a norma mãe do varejo farmacêutico), no seu Artigo 2º, o Manual é um dos 5 documentos obrigatórios para o funcionamento, ao lado da AFE, AE, Licença Sanitária e CRT.
A base legal: RDC
A RDC nº 44 de 17 de agosto de 2009) é clara em seu Artigo 85: “Deve ser elaborado Manual de Boas Práticas Farmacêuticas, específico para o estabelecimento, visando ao atendimento ao disposto nesta Resolução, de acordo com as atividades a serem realizadas.”
A palavra-chave aqui é específico. A Vigilância Sanitária penaliza severamente farmácias que apresentam manuais genéricos que não condizem com a realidade da loja vistoriada.

Qual a diferença entre manual de boas práticas e POPs?
Esta é a dúvida mais comum. Embora andem juntos, eles têm funções distintas na gestão da qualidade.
- Manual de boas práticas (O QUÊ): É o documento macro. Ele descreve o que a farmácia faz e quais são as políticas. Exemplo: “Nesta farmácia, realizamos a limpeza do chão duas vezes ao dia utilizando hipoclorito”.
- POPs – Procedimentos Operacionais Padrão (COMO): É o documento micro, o passo a passo. Ele descreve como fazer. Exemplo: “POP de Limpeza: 1. Encher o balde com 5L de água; 2. Adicionar 50ml de hipoclorito; 3. Passar o pano em movimentos de ‘oito’…”
O Manual referencia os POPs. Um não existe sem o outro. Se o Manual diz que você presta serviços farmacêuticos, deve haver um POP explicando a técnica de cada serviço.
Checklist: o que deve conter no manual de boas práticas?
Para estar em conformidade com as boas práticas farmacêuticas, seu manual deve ser dividido em capítulos que cubram toda a operação. Abaixo, listamos os itens indispensáveis baseados na RDC:
1. Identificação e objetivos
Dados da empresa (Razão Social, CNPJ, Endereço), organograma (quem responde a quem) e o objetivo do manual.
2. Infraestrutura física
Descrição das áreas: recepção, área de dispensação, sala de serviços (se houver), sanitários, copa e área de armazenamento. Deve descrever como é feita a manutenção e limpeza (controle de pragas, limpeza de caixa d’água, etc.).
3. Recursos humanos
Descrição das atribuições do Farmacêutico responsável, dos balconistas e do pessoal de limpeza. Deve constar a política de treinamento, uso de EPIs e higiene pessoal.
4. Aquisição e recebimento
Como a farmácia seleciona fornecedores? Como é feita a conferência da mercadoria na chegada (lote, validade, integridade)? O que acontece se o produto chegar avariado?
5. Armazenamento
Política de organização (por ordem alfabética, laboratório ou classe terapêutica), controle de temperatura e umidade (termohigrômetros), e segregação de produtos (área de quarentena).
6. Dispensação de medicamentos
Regras para venda de medicamentos isentos de prescrição (MIPs) e venda sob prescrição. Como é feita a conferência da receita médica e a orientação ao paciente.
7. Produtos controlados (SNGPC)
Se a farmácia vende controlados (Portaria 344/98), o manual deve detalhar o uso do armário com chave e a escrituração no sistema SNGPC.
8. Serviços farmacêuticos (opcional, mas crítico)
Se você oferece aferição de pressão, glicemia, aplicação de injetáveis ou perfuração de lóbulo auricular, isso precisa estar no manual. Se estiver no manual e não na loja (ou vice-versa), é infração.
Erros comuns que geram multas na fiscalização
Ao inspecionar o manual de boas práticas farmacêuticas, o fiscal sanitário busca inconsistências. Evite estes erros clássicos:
- Cópia Integral (Copy-Paste): Usar um manual de outra farmácia e esquecer de trocar o nome da empresa ou citar procedimentos que você não realiza (ex: citar “manipulação” em uma drogaria que só vende industrializados).
- Desatualização: A RDC muda. Se o seu manual cita leis revogadas ou não inclui novas regras (como as de logística reversa ou antibióticos), ele é inválido.
- Falta de assinatura: O documento deve ser datado e assinado pelo Farmacêutico Responsável Técnico.
- Teoria vs. prática: O manual diz que a geladeira é verificada 3 vezes ao dia, mas a planilha de registro na parede está vazia. Isso configura falsidade ideológica sanitária.
Como elaborar e manter o documento atualizado
Criar um Manual do zero exige tempo e conhecimento técnico profundo da legislação. O processo envolve:
- Diagnóstico: Ler a RDC 44/09 e listar tudo o que a farmácia faz.
- Redação: Escrever os procedimentos em linguagem técnica, mas clara.
- Revisão: Cruzar o texto com a realidade física da loja.
- Treinamento: Não adianta ter o manual na gaveta. A equipe precisa ler e ser treinada sobre o que está escrito ali.
Conclusão
O Manual de Boas Práticas Farmacêuticas é mais do que uma exigência da ANVISA; é a prova de que seu estabelecimento opera com seriedade, segurança e qualidade. Mantê-lo atualizado e fiel à realidade da sua farmácia é a melhor defesa contra multas e interdições.
Não corra riscos desnecessários com a documentação da sua empresa. A conformidade regulatória é a base para o crescimento sustentável no varejo farma.
