Farmacêuticas faturaram mais de R$ 1 bilhão com ‘kit Covid’

(Texto atualizado em 09/08/2021 às 12:25 pm)

O faturamento de sete laboratórios farmacêuticos com a venda do chamado ‘kit Covid’ foi de R$ 482 milhões de janeiro de 2020 a maio de 2021. Antes da pandemia a comercialização ficou pouco acima de R$ 180 milhões. Em algumas empresas o crescimento foi sete vezes maior.

O levantamento foi feito pela Folha de S.Paulo com base em documentos sigilosos e abertos enviados à CPI da Covid pelas empresas EMS, Farmoquímica, Momenta Farmacêutica, Abbott, Sandoz, Cristália e Supera Farma. Outras farmacêuticas, como a Apsen, Vitamedic e Brainfarma, não enviaram dados fechados de seu faturamento para a comissão, então o valor total pode ter ultrapassado R$ 1 bilhão.

Entre os remédios listados estão cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e vitamina D. A quantidade de medicamentos vendida que foi informada pelas empresas multiplicada pelo preço médio também comunicado nos documentos dá um valor de mais R$ 897 milhões gastos de janeiro de 2020 a maio de 2021.

Das empresas que enviaram os dados, a EMS faturou R$ 142 milhões com medicamentos do ‘kit Covid’ em 2020. Esse quantitativo representou crescimento de 709% em relação ao faturamento do ano anterior. A empresa informou, em nota, que sempre produziu seus medicamentos para os fins previstos em bula e que não comercializou nenhum ‘kit Covid’. Em seu site, a empresa se manifesta sobre a ineficácia da hidroxicloroquina para o tratamento contra a Covid-19.

A venda com a hidroxicloroquina foi cerca de 20 vezes maior em 2020 do que no ano anterior. No entanto, a empresa diz que não é possível fazer a comparação, tendo em vista que a produção começou em setembro de 2019.

Outra empresa que comercializa cloroquina e teve aumento nas vendas é a Cristália. O faturamento com a droga quase dobrou em 2020 na comparação com o ano anterior e chegou a R$ 643 mil. O laboratório disse, em nota, que comercializa o difosfato de cloroquina há mais de 20 anos somente para hospitais, públicos ou privados, e atribuiu o aumento das vendas a casos de malária.

‘O aumento de vendas no último ano não se refere à pandemia de Covid-19, mas, sim, [ocorreu] em função da flutuação dos casos de malária no país. O valor de venda do produto em 2020 representou apenas 0,02% do faturamento da empresa.’

A Sandoz Brasil teve crescimento de 115% nas vendas com a azitromicina. ‘A empresa reforça que não endossa o uso de nenhum de seus produtos fora das especificações e indicações de seus respectivos registros sanitários e qualquer início ou interrupção de uso de medicamentos deve ser avaliado em conjunto com um profissional de saúde’, disse em nota.

A Abbott também registrou crescimento nas vendas da ivermectina e faturou sete vezes mais do que em 2020 -foram R$ 15,6 milhões naquele ano. A empresa disse, em nota, que as vendas refletem a procura espontânea pelo produto, mas destaca que o uso de ivermectina para tratamento da Covid-19 não é indicado na bula do produto.

Já a Farmoquímica teve alta de 8% nas vendas de nitazoxanida com a chegada da pandemia -de R$ 124,6 milhões em 2019 para R$ 134,7 milhões em 2020. Em nota, a empresa disse que o medicamento deve ser usado para tratamento de patologias, parasitoses e gastroenterites.

‘A evolução do produto em referência, 8%, está alinhada ao desempenho do mercado farmacêutico brasileiro, que cresceu 11,3% em 2020, conforme auditorias que avaliam a produtividade de todo setor’, concluiu.

Outra empresa que teve um salto nas vendas de 2019 para 2020 foi a Momenta Farmacêutica, que vende vitamina D. O faturamento passou de R$ 33,5 milhões para R$ 58,2 milhões, uma alta de 73,56%. O valor de 2021, até o mês de maio, já supera o de 2019 (R$ 52,5 milhões).

A Supera Farma, que vende nitazoxanida, foi a única que teve redução no faturamento, com medicamentos que fazem parte do ‘kit Covid’. Seu faturamento passou de R$ 557 mil em 2019 para R$ 520 mil em 2020. Em nota, a empresa disse que ‘os números apontados refletem uma variação de mercado.’

Apesar de não informar o faturamento total, a farmacêutica Apsen afirmou que vendeu 57,8 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina em 2020, com preço médio de R$ 1,67. Já em 2021, foram 28,2 milhões, com preço médio de R$ 1,56. A empresa ressaltou que as vendas do medicamento no ano passado corresponderam a 10,1% da receita líquida da empresa. Disse ainda que, com a pandemia e a maior procura do medicamento, registrou aumento de 30,7% em 2020 em relação ao ano anterior.

A farmacêutica Vitamedic disse à CPI que a venda de i vermectina pela empresa aumentou 1.230% em 2020. Já a Brainfarma, que comercializou azitromicina e nitazoxanida nesse período, também registrou alta nas vendas.

Fonte: Redação Panorama Farmacêutico

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