Montar uma farmácia exige um planejamento financeiro, logístico e regulatório meticuloso, especialmente no que tange à seleção e ao controle de estoque. Diferente de outros tipos de varejo, a validade curta e a especificidade técnica dos produtos farmacêuticos tornam a compra inicial um desafio à parte.
A dúvida sobre qual lista de medicamentos para abrir uma farmácia é a ideal permeia a mente de todo gestor que deseja evitar dois cenários desastrosos logo na inauguração: a ruptura de estoque (o cliente pede e você não tem) ou o estoque parado (dinheiro imobilizado em produtos sem giro).
Desde a concepção do plano de negócios até a abertura das portas, a definição do mix de produtos é uma etapa crucial. Se você está nesse estágio da operação, este artigo servirá como um mapa técnico detalhado para conferir a lista de medicamentos para abrir uma farmácia, baseada nas tendências mais recentes do mercado brasileiro e dados auditados de 2025.
O novo conceito de farmácia e o impacto no estoque
A farmácia moderna transcendeu o papel histórico de ser apenas um ponto de dispensação de caixas de remédios. Atualmente, ela se estabeleceu como um hub de saúde e bem-estar. O estabelecimento comercial híbrido de hoje promove saúde através de medicamentos, mas sustenta sua margem de lucro através de produtos de higiene pessoal, cosméticos, suplementos e serviços farmacêuticos (como vacinação, testes rápidos e aferição de pressão).
No entanto, apesar dessa necessária diversificação, o medicamento continua sendo o coração do negócio — o grande “gerador de tráfego”. O cliente entra para buscar um remédio para dor de cabeça e acaba levando um item de conveniência. Por isso, simplesmente abrir as portas sem estar preparado para atender as demandas básicas de patologias da população local é um erro fatal. O primeiro passo para o sucesso é garantir que a sua lista de medicamentos para abrir uma farmácia cubra as necessidades essenciais.
1. O “feijão com arroz”: medicamentos essenciais de alto giro
É vital ter um estoque mínimo de segurança dos itens básicos. Imagine a frustração de um cliente entrar no estabelecimento com dor ou febre e não encontrar um analgésico simples. Isso quebra a confiança na marca imediatamente e estimula a ida ao concorrente.
Abaixo, categorizamos os itens que funcionam como a “cesta básica” do setor farmacêutico. Eles possuem altíssima rotatividade (volume) e, embora tenham margens unitárias menores, são obrigatórios para a manutenção do fluxo de clientes.
Analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios
São os líderes absolutos de venda em unidades. Devem estar presentes em todas as apresentações possíveis (comprimidos, gotas, xaropes, supositórios) e em variações de laboratórios (Referência, Genérico e Similar):
- Dipirona e Paracetamol: A base de qualquer estoque. Indispensáveis para febre e dor.
- Ibuprofeno, Diclofenaco e Cetoprofeno: Para processos inflamatórios, dores musculares e traumas leves.
- Nimesulida: Extremamente procurada para dores de garganta e inflamações agudas.
- Relaxantes Musculares: Compostos com Citrato de Orfenadrina, Cafeína e Dipirona (como os similares ao Dorflex, Torsilax, Nevralgex) figuram sempre no top 10 de unidades vendidas no Brasil.
Gastrointestinais e digestivos
O estilo de vida moderno e a má alimentação garantem alta saída para esta categoria:
- Antiácidos: Sais de frutas, pastilhas mastigáveis e suspensões.
- Inibidores da bomba de prótons: Omeprazol, Pantoprazol, Esomeprazol (focados em gastrite e úlceras).
- Antiespasmódicos: Essenciais para cólicas abdominais e menstruais (ex: Butilbrometo de escopolamina).
- Antieméticos: Para náuseas e vômitos (ex: Ondansetrona, Plasil, Dramin).
Uso contínuo (Crônicos)
Estes medicamentos garantem a recorrência e a fidelidade do cliente. Quem toma remédio para pressão ou diabetes, compra todo mês, religiosamente.
- Hipertensão: Losartana Potássica, Atenolol, Hidroclorotiazida, Maleato de Enalapril, Anlodipino.
- Diabetes (básicos): Cloridrato de Metformina, Glibenclamida.
- Colesterol (dislipidemias): Sinvastatina, Atorvastatina, Rosuvastatina.
- Tireoide: Levotiroxina Sódica (Puran T4, Euthyrox e seus genéricos).
2. Análise de mercado 2025: A revolução dos injetáveis e alto custo
Para montar uma lista de medicamentos para abrir uma farmácia que seja competitiva hoje, é impossível ignorar os dados econômicos mais recentes. O perfil de consumo do brasileiro mudou drasticamente nos últimos 12 meses.
Segundo levantamento atualizado da IQVIA (MAT Setembro 2025), a categoria de medicamentos de marca gerou R$ 19,6 bilhões de receita, impulsionada por uma tendência clara e avassaladora: os tratamentos modernos para obesidade e diabetes.
Ao analisar o ranking dos 20 medicamentos com maior faturamento no Brasil, notamos que o topo não é mais dominado apenas por analgésicos baratos, mas por medicamentos de alto valor agregado.
O top 5 que define o faturamento em 2025:
- Wegovy (R$ 3,84 Bilhões): O líder absoluto do mercado atual.
- Forxiga (R$ 2,12 Bilhões): Tratamento de diabetes e insuficiência cardíaca (Dapagliflozina).
- Mounjaro (R$ 1,99 Bilhões): A nova geração de tirzepatida, com crescimento exponencial.
- Ozempic (R$ 1,84 Bilhões): A semaglutida que revolucionou o mercado e continua extremamente relevante.
- Glifage XR (R$ 1,34 Bilhões): A referência em metformina de liberação prolongada.
O que isso significa para o seu estoque inicial? Significa que o seu capital de giro precisa estar preparado. Embora você precise ter a Dipirona (que vende milhões de unidades, mas custa centavos), o faturamento da sua loja será fortemente impactado por esses medicamentos de “Ticket Médio Alto”.
Ter Wegovy e Mounjaro na sua lista de medicamentos para abrir uma farmácia é estratégico não só pela venda direta, mas para atrair um público com maior poder aquisitivo (Classes A e B), que tende a comprar também dermocosméticos, vitaminas importadas e produtos de maior margem na mesma visita.

3. A estratégia de lucratividade: referência, genérico e similar
Um erro comum de quem está montando a primeira lista de medicamentos para abrir uma farmácia é não entender o “papel” de cada tipo de medicamento na saúde financeira da empresa.
- Medicamentos de referência (Éticos): São as marcas famosas (ex: Novalgina, Tylenol, Cataflam). Eles atraem o cliente e geram confiança, mas geralmente possuem margens de lucro menores para a farmácia, pois os preços são muito comparados pelos consumidores. Você precisa tê-los para não perder a venda.
- Medicamentos genéricos: Contêm o mesmo princípio ativo, biodisponibilidade e eficácia do referência. São a “locomotiva” da farmácia popular brasileira. Possuem alta aceitação e margens de lucro melhores que os de referência.
- Medicamentos similares (Intercambiáveis): São medicamentos de marca (não genéricos) que possuem testes de bioequivalência. Frequentemente, é aqui que reside a maior rentabilidade da farmácia. Trabalhar bem a conversão no balcão (oferecer um similar de qualidade e preço competitivo) é fundamental para o lucro líquido do negócio.
Sua lista inicial deve ser balanceada: tenha o referência para atrair, e o genérico/similar para rentabilizar.
4. Categorização regulatória e burocracia
Gerenciar uma farmácia envolve dominar as regras da ANVISA e da CMED. Ao fazer seu pedido nos distribuidores, você notará que a lista é dividida por categorias regulatórias que exigem tratamentos diferentes:
Medicamentos monitorados vs. liberados
- Monitorados: Possuem preço máximo (PMC) fixado rigidamente pelo Governo (CMED). A farmácia não pode vender acima desse teto sob pena de multa. Inclui a maioria dos tarjados e crônicos.
- Liberados: Não possuem controle rígido de teto de preço pelo governo (embora o mercado regule o valor). É onde a farmácia tem liberdade para precificar com base em valor agregado. Inclui muitos MIPs, vitaminas e fitoterápicos.
O desafio do SNGPC (Controlados)
Para vender medicamentos de “Tarja Preta” ou “Tarja Vermelha com Retenção de Receita” (antibióticos, psicotrópicos, ansiolíticos como Clonazepam, Zolpidem, Sertralina), sua farmácia precisa estar cadastrada no SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados).
- Infraestrutura: Exige armário com chave ou sala segura, exclusiva para esses itens.
- Inventário: A entrada e saída desses medicamentos deve ser informada eletronicamente à Anvisa.
- Decisão Inicial: Muitos proprietários optam por não abrir com controlados no primeiro mês para simplificar a burocracia inicial, mas isso pode frustrar clientes. Se for incluir na lista, garanta que o Farmacêutico Responsável já esteja habilitado no CRF e na Anvisa.

Termolábeis (Cadeia de Frio)
Medicamentos como Insulinas (Lantus, Tresiba, NPH), algumas vacinas e colírios exigem refrigeração (2°C a 8°C).
Para tê-los na sua lista de medicamentos para abrir uma farmácia, você precisará de uma geladeira exclusiva com termômetro de máxima e mínima e registro diário de temperatura. Sem isso, a Vigilância Sanitária não libera a venda.
5. Produtos correlatos e conveniência: aumentando o ticket médio
Uma farmácia não vive só de remédio. A venda de não-medicamentos é vital para pagar as contas fixas (aluguel, luz, funcionários). Sua lista inicial deve contemplar:
- Higiene pessoal: Shampoos, desodorantes, sabonetes, higiene oral (pastas e escovas de marcas recomendadas por dentistas).
- Mundo infantil: Fraldas (ponto de atração de pais), pomadas para assadura, lenços umedecidos, chupetas e mamadeiras (verifique a legislação sobre exposição destes itens).
- Primeiros socorros: Curativos, ataduras, esparadrapos, água oxigenada, álcool 70%.
- Conveniência alimentar: Balas, chicletes, barras de cereal, água mineral e bebidas isotônicas (ótimo para dias quentes).
- Dermocosméticos: Protetores solares, hidratantes faciais e corporais. É uma categoria de alto valor, mas exige consultoria no balcão.
6. Sazonalidade: a lista muda conforme o ano
Ao montar sua lista de medicamentos para abrir uma farmácia, olhe para o calendário. O mix de produtos muda drasticamente dependendo da estação:
- Inverno: aumente o estoque de antigripais, xaropes, pastilhas para garganta, vitaminas C e D, hidratantes labiais e corporais (devido ao ressecamento da pele).
- Verão: O foco muda para protetores solares, pós-sol, repelentes (devido à dengue/zika), antialérgicos (picadas de insetos) e medicamentos para micoses e reidratação oral.
Dica: Não compre 100 caixas de xarope em dezembro (início do verão), pois você terá capital parado até o próximo outono.
7. Onde comprar? os maiores fornecedores de 2024/2025
O Brasil é projetado como um dos 5 maiores mercados farmacêuticos do mundo. Isso atrai grandes players globais. Para quem vai abrir, o caminho não é comprar direto da indústria (o que exige volumes gigantescos), mas sim negociar com distribuidores farmacêuticos (Atacado).
É importante saber quais são os laboratórios “Top of Mind” para garantir que os distribuidores tenham esses itens. Confira o Ranking das Maiores Farmacêuticas do Brasil (Vendas em 2024):
- Grupo NC (EMS): R$ 26,43 Bilhões – O gigante dos genéricos.
- Eurofarma: R$ 18,73 Bilhões – Forte em prescrição médica e genéricos.
- Hypera Pharma: R$ 17,08 Bilhões – Dona de “blockbusters” como Benegrip, Engov e Buscopan.
- Sanofi: R$ 9,65 Bilhões – Multinacional líder (Novalgina, Dorflex).
- Cimed: R$ 9,25 Bilhões – Crescimento agressivo, focada em vitaminas (Lavitan) e genéricos acessíveis.
- Aché: R$ 8,25 Bilhões.
- Novo Nordisk: R$ 6,66 Bilhões – A dona do Ozempic e Wegovy.
Ao cadastrar seus fornecedores (distribuidores como SantaCruz, Panpharma, Profarma, etc.), verifique se eles possuem bom sortimento dessas indústrias.
8. Gestão inteligente: como definir a quantidade do primeiro pedido?
Esta é a dúvida crucial. Se comprar demais, o produto vence. Se comprar de menos, o cliente vai embora. Para uma farmácia nova, sem histórico de vendas, recomendamos a seguinte metodologia:
- Aposte na curva A: Identifique os 20% dos produtos que representam 80% da demanda (Dipirona, Losartana, Omeprazol, Neosoro). Desses, tenha um estoque mais robusto (ex: cobertura para 30 dias).
- Estoque mínimo para Curva C: Para itens de menor saída ou muito específicos, compre a quantidade mínima permitida pelo distribuidor (ex: 1 ou 2 unidades). O objetivo é ter o item para “salvar a venda”, mas não investir dinheiro nisso.
- Reposição diária: A logística farmacêutica no Brasil é excelente. A maioria dos centros urbanos recebe entregas diárias. É melhor comprar pouco e repor todo dia do que fazer um “pedido monstro” mensal e errar na previsão.
- Software de gestão: Utilize um sistema que já venha com sugestão de compra baseada em parâmetros de mercado ou que aprenda rapidamente com suas primeiras vendas.
Conclusão
Ter uma lista de medicamentos para abrir uma farmácia bem estruturada é o alicerce da saúde financeira do seu negócio. Comece garantindo o básico (analgésicos e uso contínuo) para gerar tráfego, mas esteja atento às tendências de 2025, especialmente os medicamentos de alto valor para diabetes e obesidade, que elevaram o patamar de faturamento do setor.
Lembre-se que o estoque é um organismo vivo. Nos primeiros 3 a 6 meses, seu foco deve ser analisar os relatórios de venda semanalmente para ajustar o mix, eliminando o que não gira e reforçando o que o seu público local demanda. Sucesso na inauguração!
