Números para entender preços na Saúde Suplementar

A Figura ilustra um fato negligenciado na análise de preços, especialmente nas operadoras de planos de saúde (a carteira específica do serviço de saúde):

·         Ao analisar os números reais (valores de contas) da saúde suplementar ficam evidentes os mitos e fatos que envolvem a precificação na saúde suplementar;

·         Existe uma tendência dos gestores de operadoras de planos de saúde na definição dos pacotes, e dos gestores de serviços de saúde em analisar a viabilidade dos pacotes, de considerar valores médios gerais das contas … um grande erro … existem outros fatores tão ou mais importantes, dependendo de cada caso;

·         Na verdade nem dá para chamar de erro, porque em boa parte das vezes o gestor não possui capacitação adequada e/ou conhecimento real do mercado para identificar os outros fatores … é despreparo;

·         Mas os números demonstram quanto o eventual preparo inadequado para lidar com precificação é refletido nos preços reais no mercado.

As consequências:

·         Oferta, por parte das operadoras, de pacotes inviáveis para os serviços de saúde;

·         Recusa, por parte dos serviços de saude, de pacotes viáveis ofertados por operadoras;

·         Projetos de pacotes para melhoria de cuidados e de modelos de remuneração baseados em valor que não aderem à sustentabilidade das cadeias de valores (fonte pagadora / serviço de saúde / fornecedores).

Os números aqui são tabulados a partir dos dados disponibilizados pela ANS (dados abertos):

·         É necessário comentar que existem vieses nos números … a regulação da ANS não é boa, o padrão TISS não é bom, a padronização TUSS não é boa;

·         A tabulação dos dados exige manipulações, agrupamentos e conhecimento das práticas comerciais usualmente aplicadas na saúde suplementar, porque as bases de dados não contêm todos os dados necessários para tabular preços de eventos, contas, pacotes;

·         E é necessário explicar que dados que não constam na base da ANS não existem na origem da captação das contas por parte dela: dados que deveriam obrigatoriamente estar nas contas apresentadas para a fonte pagadora não fazem parte da padronização TISS;

·         E é necessário ressaltar que na relação comercial entre fonte pagadora e serviço de saúde o contrato é soberano – define particularidades caso a caso: inclusão ou não de determinados itens nas contas, e uma série de outras particularidades;

·         Somente quem já “transpirou muito” para negociar um contrato novo, para aditar um reajuste de preços, para parametrizar o sistema de faturamento das contas, para definir processos de auditoria … enfim … só quem já viveu a prática, que é bem diferente da teoria, tem discernimento para “fugir das armadilhas” dos dados;

·         Sinto dizer para os que já “transpiraram muito por isso”: a maioria absoluta das pessoas não faz a menor ideia do que você faz, o esforço que você emprega para fazer … fica aqui uma palavra de consolo !

Isso posto … vamos analisar alguns números sinalizando os vieses da regulação … temos números … isso já é um grande avanço: os mais jovens devem ter certeza em relação a isso … o que temos não é bom, mas é bem melhor do que tínhamos !!!

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(*) Todos os gráficos são partes integrantes do Estudo Geografia Econômica da Saúde no Brasil

O gráfico ilustra a comparação entre preços de contas abertas e contas do tipo pacote de 3 procedimentos diferentes:

·         Uma compilação de contas do Amazonas, Ceará, Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul … uma UF de cada região do Brasil;

·         São valores médios das contas – tanto das contas abertas, como as do tipo pacote;

·         Existem variações grandes em algumas contas, mas em todos os casos não são suficientes para modificar de forma significativa a média … então nem foi estabelecido critério de exclusão dos valores muito grandes ou muito pequenos … até porque para o que está sendo discutido aqui a exatidão dos valores é absolutamente desnecessária !

Dependendo do procedimento:

·         O valor médio das contas abertas é maior ou menor que o valor médio das contas tipo pacote – ao contrário do que se pensa, nem sempre o valor da conta pacote é menor que a da conta aberta;

·         Um viés da base de dados da ANS (na verdade da regulação da ANS) é que “no universo” das contas que compõem as médias, algumas podem incluir honorários e outras não, algumas incluem “Alto Custo” outras não – mas isso ocorre tanto nas contas abertas como nas contas tipo pacote;

·         Como (quem trabalha com isso pode confirmar) os pacotes tendem a ter a mesma definição de inclusão de itens das contas abertas, dentro do pacote ou adicional a ele, e os dados se referem a uma grande quantidade de contas, o efeito destas particularidades é insignificante.

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A comparação de preços do gráfico anterior pode ser representada em forma de percentual:

·         Vemos que em um procedimento as contas do tipo pacote reduziram o preço em 15 %;

·         Mas em outros procedimentos o preço do pacote chega a ser 30 % maior;

·         No caso dos procedimentos em que os pacotes ficam com preço maior que a média, geralmente o valor absoluto da conta não é alto … são os que, na alta complexidade, são de menor complexidade.

É fato que nem sempre os pacotes reduzem os valores das contas:

·         Graças a Deus os números demonstram que não tenho mentido há anos quando digo que o pacote sempre é vantajoso para a operadora, independente do valor ser maior ou menor que a conta aberta … e que, dependendo da forma como a operadora tabulou os dados para oferecer o pacote, para determinados serviços de saúde pode ser inviável, mas para outros pode ser um grande negócio;

·         Isso ocorre porque nós temos empresas bem e mal estruturadas para lidar com isso tanto do lado da fonte pagadora como no lado dos serviços de saúde;

·         Vamos lembrar que saúde é um dos maiores segmentos da economia no mundo, e em todo o mundo tem uma característica muito parecida: é formado por  uma maioria absoluta de empresas pequenas, sem estrutura administrativa e comercial adequada, e uma minoria da minoria da minoria de empresas grandes que têm esta estrutura … e que as grandes, comparadas com as demais … são gigantes;

·         Este lembrete é bom, especialmente para os gestores menos experientes, que entraram no segmento a pouco tempo e costumam ter a visão de que o mercado é composto de empresas iguais às grandes e famosas que todos conhecem … não é verdade.

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Quem viu os primeiros gráficos e pensou que as variações ocorrem porque se referem a especialidades diferentes se engana:

·         Este gráfico é específico de uma única especialidade;

·         Vemos diferenças entre o valor das contas do tipo pacote e das contas abertas de cerca de – 40 %, até mais de 20 %;

·         Nesta especialidade, especialmente em alguns procedimentos, existe alta frequência de OPME … mas como tabulamos todas as contas relacionadas ao evento o viés de comparação acaba não existindo;

·         O que se coloca é que a especialidade não define se o valor do pacote será menor ou maior que o valor médio das contas abertas … isso é indiscutível ao olhar o gráfico.

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E assim o perfil se repete em todas as especialidades … um dos principais motivos:

·         Os preços (tabelas de preços, multiplicadores, deflatores, itens que compõem a tabela negociada, valor do alto custo obtido nos orçamentos …) espelham o cenário específico em que estão inseridos a fonte pagadora e o serviço de saúde … a região, a concorrência …

·         A maioria absoluta dos pacotes propostos pelas operadoras é uma tabulação de médias gerais do mercado;

·         Em relação a um serviço de saúde específico o preço do pacote pode ser maior ou menor que a média específica das suas contas;

·         Se o serviço de saúde analisa de forma adequada, recusa se o pacote for ruim ou, pior para a operadora, aceita com prazer quando a operadora não avaliou adequadamente o impacto em relação especificamente a ele;

·         Mas se o serviço de saúde não analisa de forma adequada, o resultado será “pura loteria” … vai ser sentido somente na apuração da rentabilidade das unidades de negócios.

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Para a operadora propor um pacote, e para o serviço de saúde avaliar o pacote, o fator regional é imprescindível:

·         O gráfico demonstra a variação de preços de contas pacote e abertas em procedimentos de alta frequência – são contas fáceis de serem tabuladas a partir da base da ANS, e o volume é altíssimo … os eventuais vieses “desidratam completamente”;

·         As variações de preços regionais são significativas, porque existem vários fatores relacionados à disponibilidade de acesso aos serviços (disponibilidade de rede), concorrência, facilidade de levar o paciente para realizar o procedimento em outra cidade, costumes regionais de relacionamento dos serviços de saúde com os médicos, logística para o fornecedor entregar os insumos …

·         Pensar que um estudo de estruturação de pacote vai aderir independente da região … pensar que a análise que uma rede de serviços fez em uma região servirá para todos os serviços de todas as regiões … é um grande erro.

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Também pensar que nos procedimentos de menor complexidade a realidade muda, porque a eventual variação do procedimento é menor, e as questões relacionadas ao que está incluso ou não nas contas abertas e nos pacotes é minimizada … como o gráfico demonstra … também é um grande erro:

·         Vemos em procedimentos deste tipo valores de pacotes maiores e menores que os valores de contas abertas.

Agora que os números embasam a defesa da tese, podemos voltar a citar ilustração inicial … a primeira figura … lá no topo do texto:

·         Se a operadora não considera como a sua carteira se distribui entre os diversos serviços de saúde … erra no atacado … a chance do pacote ser viável comercialmente é pequeníssima;

·         A ilustração é a de tipos de beneficiários diferentes acessam mais os menos determinados serviços da rede, e tratar estes beneficiários tão diferentes é muito diferente … o custo do tratamento é muito diferente;

·         É mais que evidente que um mesmo procedimento realizado nos 3 serviços de saúde será mais caro no segundo (o do meio), porque os pacientes vão demandar mais cuidados … dependendo do caso … muito mais … sairá muito mais caro;

·         As contas abertas ajustam isso naturalmente … os cuidados vão sendo listados em função do que ocorre;

·         Mas se a proposta de pacote for a mesma para todos, sem considerar as diferenças, pode ser viável para o primeiro caso e não ser para o segundo, o terceiro;

·         Os serviços que analisam adequadamente a proposta, identificam claramente as que são viáveis, e aceitam … e identificam as que são indecentes: e refugam !!!

Bem … demos foco aqui nas contas tipo pacote, porque mesmo com as deficiências da regulação e da base de dados da ANS conseguimos compilar e utilizar informações com uma “boa dose de segurança” para direcionar a sustentabilidade das operadoras, serviços de saúde e fornecedores de insumos, especialmente os de alto custo:

·         Mas tudo isso vale igualmente para pacotes para melhoria de cuidados;

·         Vale para definições relacionadas aos modelos de remuneração alternativos ao fee for service;

·         Vale para as definições de preços relacionadas aos parâmetros de qualidade assistencial, eficiência, eficácia e efetividade que permeiam a remuneração baseada em valor …

É muita inocência imaginar que quando o tema é precificação, algo possa se sobrepor às questões comerciais:

·         Quem pensou o contrário e se aventurou a desafiar as leis da oferta e da procura, e dos interesses das mantenedoras das empresas que atuam no mercado já “amargou uma coleção” de projetos fracassados.

Estas nuances que podem ser comprovadas com números do setor, e não pelas futurologias vazias … são ma-ra-vi-lho-sas … lidar com isso de forma profissional é “uma benção” … quanto mais a gente atua, mais aprende, e mais gosta !!!

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