Venda de ‘kit Covid’ dispara nos 15 primeiros meses de pandemia

Levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostra que as vendas de Ivermectina tiveram aumento de 763% no país

A pandemia da Covid-19 e o medo de contrair a doença transformaram a saúde em neurose e provocaram uma verdadeira corrida dos brasileiros às farmácias em busca de medicamentos que fazem parte do chamado ‘kit Covid’. Um levantamento feito pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) mostra que as vendas de alguns remédios, aos quais são atribuídas propriedades de cura ou prevenção ao coronavírus, mesmo sem nenhuma evidência científica, estão em alta. Nos primeiros 15 meses de pandemia, entre março de 2020 e maio de 2021, foi registrado um aumento de 763% nas vendas de ivermectina no Brasil, em comparação com o mesmo período anterior à chegada da Covid-19 no país. Em segundo lugar, aparece a hidroxicloroquina, com 167%, seguida da vitamina D, com 119%, e do antibiótico azitromicina, com 96% (veja detalhes no infográfico abaixo).

Além disso, dados da Federação Brasileira de Redes de Farmácias (Febrafar) mostram que o faturamento do mercado farmacêutico cresceu 13,7% entre maio de 2020 e maio deste ano, saltando de R$ 126,2 bilhões para R$ 143,5 bilhões. Na avaliação do farmacêutico Gerson Pianetti, membro do Conselho Federal de Farmácia (CFF) em Minas Gerais, esse aumento das vendas e do consumo dos medicamentos que compõem o kit Covid foi resultado de uma política errada do governo federal que incentivou a população a fazer uso desses fármacos, sem comprovação científica.

‘Quando você vai fazer a indicação de algum produto medicamentoso, é necessária uma informação precisa, com muita pesquisa. Mas isso foi politizado pelo governo, que passou a incentivar as pessoas a fazerem uso do kit Covid. A desinformação deu abertura para esse consumo enorme e prejuízo para quem realmente faz uso do medicamento. Houve essa corrida às farmácias, com a conveniência dos médicos, obviamente, que faziam a prescrição e a indicação de remédios que hoje já sabemos que não têm a menor eficácia contra o vírus. E a população, na falta de uma vacina que desse a ela segurança e no desespero diante do risco de adquirir a doença, passou a fazer uso dos medicamentos‘, afirma.

Entre os 11 medicamentos pesquisados pelo CFF, só a azitromicina é vendida com a retenção da receita. Os outros seis, com exceção da vitamina C e dos analgésicos e antitérmicos, contêm na embalagem a indicação de venda apenas com prescrição médica. Mesmo assim, podem ser comprados facilmente pela população.

Uso mesmo sem comprovação. A pensionista Dalveneide Almeida Santos, 65, teve Covid-19 em abril deste ano, e não precisou ser hospitalizada. ‘Tive febre, dor no corpo e de cabeça e a garganta inflamada. Um médico, conhecido meu, me receitou azitromicina, cloroquina, ivermectina e vitamina D com zinco’, relata. Ela conta que faz uso de alguns remédios do kit Covid desde o início da pandemia. ‘A vitamina D e a ivermectina eu já tomava desde o início da pandemia e continuo tomando, mesmo depois de ter me recuperado da Covid’, diz Dalveneide.

Quem também fez uso da ivermectina no início da pandemia foi o comerciante Reginaldo Augusto Gomes, 57, que apresentou sintomas leves de Covid-19 em junho deste ano. ‘No começo da pandemia, todo mundo aqui em casa tomou ivermectina. Agora em junho, eu, minha esposa, minha filha e meu filho pegamos Covid. O médico me receitou cloroquina e ivermectina durante cinco dias. Tomei e melhorei. Meu filho não tomou cloroquina e ficou internado por quatro dias’, conta.

BRASILEIRO CONSUMIU 259 T DE REMÉDIOS

Considerando a dosagem de princípio ativo de cada uma das unidades vendidas dos 11 remédios do kit Covid no Brasil, conforme a pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF), estima-se que tenham ido parar na casa dos brasileiros, entre março de 2020 e maio de 2021, 259,4 toneladas de medicamentos de alguma forma relacionados à Covid-19. O levantamento mostra que a campeã de vendas, em dosagem, foi a vitamina C, com 44,4 toneladas comercializadas, seguida do antibiótico azitromicina, com quase 26 toneladas. Em seguida, aparecem 6,6 toneladas do vermífugo nitazoxanida; 2,5 toneladas de vitamina D; 1,2 tonelada do antimalárico hidroxicloroquina; e mais de meia tonelada do também antiparasitário ivermectina.

O CFF alerta que todos os medicamentos podem gerar efeitos adversos e que os riscos são ainda maiores para os medicamentos tarjados, aqueles de venda sob prescrição médica. ‘Esses riscos nunca podem ser negligenciados, especialmente considerando uma doença tão desafiadora como a Covid-19. A automedicação nesses casos é fortemente desaconselhada’, informa.

Mesmo os fármacos isentos de prescrição podem causar danos, especialmente se forem usados sem indicação ou orientação profissional. Dependendo da dose, o paracetamol, por exemplo, pode causar hepatite tóxica. A dipirona oferece risco de choque anafilático, e o ibuprofeno é relacionado a tonturas e visão turva. Já o uso prolongado da vitamina C pode causar diarreia, cólica, dor abdominal e dor de cabeça. E, com a ingestão excessiva de vitamina D, o cálcio pode depositar-se nos rins e até causar lesões permanentes.

FARMACÊUTICO ALERTA A POPULAÇÃO

O farmacêutico Gerson Pianetti faz um alerta: ‘As pessoas devem acreditar na ciência e conversar com um profissional de saúde. A população não deve se automedicar. Se a pessoa não tiver condições de procurar o médico, converse com o farmacêutico, profissional preparado para orientar sobre o remédio que será usado’, diz.

Ele admite que vender medicação sem receita é um erro da farmácia também. ‘Se o remédio tem tarja vermelha, é para vender com prescrição médica, sem retenção de receita. Mas, como não precisa reter a receita, a farmácia que tem como princípio somente o lucro, e não o atendimento à população, vende’, diz.

Fonte: The World News

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